|
Final
de tarde de 13 de novembro, 1998. Sob chuva torrencial, um homem
caminha em silêncio pelo acostamento esburacado de estrada
vicinal do interior paulista. Acompanhando-o, segue, em marcha
lenta, um carro. A cena encontra significado apenas no íntimo do
protagonista e seus familiares: era a solitária comemoração de
um renascimento. "Queria ter novamente a sensação de andar
sem ter nenhum muro à minha frente", conta Josemir José
Fernandes Prado, 50 anos, o Miro - ou Jocenir, seu pseudônimo
literário, por força de um erro de grafia - que encerrava
naquele momento um ciclo dos piores pesadelos extraídos de Dante.
A
rocambolesca situação que o levou à prisão até hoje é
obscura e mal explicada. Preso em frente a um depósito de cargas
roubadas, o paulistano Jocenir sempre proclamou inocência,
afirmando ser bode expiatório de uma tramóia policial. Nascido
na classe média, na época em que foi preso era vendedor de
materiais elétricos numa multinacional, tinha carro do ano e casa
própria. A vida carcerária mandou tudo isso pelo ralo. Seu karma:
decifrar a medusa amoral, violenta, corrupta e profana chamada
cadeia, que agora se prostrava a sua frente. Antes que
conseguisse, viveu o diabo e perambulou pelo sistema carcerário
até chegar ao Carandiru onde, para não ser achacado, colocou seu
bom português a serviço dos detentos - cartas para parentes,
poesias para namoradas, essas coisas. Virou o Tiozinho, um escriba
full time. Sua fama pulou o muro e encontrou Mano Brown. Nascia Diário
de um Detento, rap e livro - um explosivo 3x4 do sistema carcerário
do país com tal concentração de TNT como até hoje ninguém
encerrou em páginas. "Um homem nunca mais é o mesmo depois
da cadeia", não se cansa de repetir o autor. A frase é
feita, perfumada. Mas sabe aquele videoclipe de Diário de um
Detento? É tudo de verdade.
Fórum
- Há mesmo tantas mortes não divulgadas na Detenção, como você
alega?
Jocenir - Lá dentro ocorrem fatos não divulgados porque depõem
contra o sistema. A imagem do presídio é maquiada para a
imprensa e para a sociedade. Não há estatística, mas ocorrem
muito mais mortes do que é divulgado. Acertos de contas,
confrontos de inimigos, cobranças de traficantes fazem parte do
cotidiano.
Qual
o aspecto do sistema carcerário do país que sociedade e
autoridades não conseguem decifrar?
Em todo lugar existem formas diferentes de viver e pensar.
Culturas diferentes, mas baseadas pela moralidade. Na cadeia, não.
Prevalece a cultura delinqüente. Um mundo à parte, amoral, no
qual prevalece a moralidade dos delinqüentes. Ninguém que não
tenha vivido lá, seja sociólogo, padre, detetive, consegue
entender esse código do banditismo. Mas que existe, existe.
Nesse
sentido, acha que falta a Estação Carandiru, best-seller do médico
Drauzio Varella, um mergulho mais profundo?
O doutor Drauzio fez uma narrativa como só ele poderia ter
feito, em virtude de seu trabalho na Detenção. Mas diariamente
ele ia embora, deixando todo o clima emocional na portaria. Ele
narrou a Detenção como vê: com olhos de visitante. Estar do
lado de dentro rende outro tipo de história.
Ao
sair da cadeia e ouvir a música pela primeira vez, conseguiu
estabelecer o que é seu texto e o que é do Brown?
Não consegui identificar nem que eu tivesse alguma participação.
Aquela letra, musicada, adquire conotação diferente. Eu a
escrevi como um desabafo, metade prosa, metade verso, e o Brown
adaptou à linguagem rapper.
Há
quem aponte o surgimento de um novo segmento literário, aberto
por Estação Carandiru e seguido por livros como o seu, o de
Hosmani Ramos e outros. Concorda?
Esses livros representam um universo que a sociedade livre
desconhece. Até hoje, tudo que se fala e escreve sobre sistema
carcerário reflete a maquiagem do governo adequada a seus
objetivos. Agora surgem livros em que se pode conhecer o que
realmente é o sistema carcerário.
As
próximas rebeliões serão maiores do que as já vistas?
É um risco. Já que o poder público atira homens atrás das
muralhas e se esquece deles, esperar que um dia não reivindiquem
seus direitos é utopia. Há muito tempo facções e grupos vêm
se organizando para cobrar as autoridades. O lema é: conciliar a
paz de forma violenta. Não tem bandeira nem sindicato, os caras vão
buscar a voz ativa do único jeito que conhecem: pela violência.
Ainda
há tempo de evitá-las?
O poder público tem tudo para isso, através da assistência
ao preso. Através da laborterapia, porque todo preso quer se
ocupar. Mas na ociosidade, e com abundância de drogas, fica difícil
avaliar o que vem pela frente.
O
Primeiro Comando da Capital (PCC) é mesmo todo-poderoso como
alardeia?
É a facção que mais cresceu nos presídios. Sobre números,
não se tem idéia. Que seu poderio é grande é um fato. A
intensidade é que ainda não se sabe.
O
PCC protege realmente o preso?
Quem é simpático a ele, sim. No momento em que alguém não
se encaixa em seus ideais de paz, liberdade e dignidade, não. A
proteção vem através de assistência financeira às famílias.
Existe
aproximação entre lideranças carcerárias paulistas e as do Rio
de Janeiro?
Acho difícil, o PCC hoje tem muito mais visibilidade. A
diferença é que o PCC foi formado por elementos perigosos dos
presídios paulistas unidos num único local, a casa de custódia
de Taubaté. Já o Comando Vermelho teve influência dos presos
políticos, na época do regime militar, mas com o tempo
desvirtuou qualquer ideal.
Qual
o peso do Conselho Democrático da Liberdade (CDL), entidade que
você ajudou, redigindo o estatuto?
O CDL é rival do PCC. Um adversário dentro dos presídios.
Onde existe PCC não existe CDL, e vice-versa - não há cadeia
neutra. E não há convivência pacífica entre eles. Se um
integrante da facção cai na cadeia dominada pela outra há
confronto. Ajudei a redigir o estatuto, parou aí, nunca me
envolvi. Não simpatizo com nenhum deles, seu código moral é
diferente do meu. Mas tenho amigos dos dois lados".
O
governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, já declarou que em
nenhuma hipótese negociará com presos em caso de novos
movimentos carcerários.
Ele tem seus pontos de vista, mas é imprevisível saber o ônus
que arcará com essa posição. O que tem que ser dito é o
seguinte: dentro da cadeia não existem "comédias",
existem homens criminosos que, quando se propõem a fazer uma
coisa, fazem. Ninguém lá tem medo das conseqüências, não é o
poder público nem a polícia que vai refreá-los.
Seu
relato tem passagens amargas, mas revela um mundo de
solidariedade e apoio mútuo nas cadeias. Isso vale para todos?
Só não existe pros 'laranjas', os que assinam crimes de outros
presos, e para estupradores. Existe a solidariedade dos mais
fortes para com os mais humildes, que são aqueles que desconhecem
o mundo do crime. Entre bandido forte também existe respeito e
solidariedade.
Por que não se consegue acabar com a corrupção e o tráfico de
drogas dentro das prisões?
Com tanto dinheiro rolando o sistema fica conivente. Enquanto
houver agentes penitenciários ganhando mal, isso não acaba. A
maioria é corrupta, são eles que colocam a droga para dentro.
Pretende
continuar a escrever?
Se através desse livro conseguir alguma estabilidade
financeira passarei o resto dos meus dias usando a caneta.
Diário
de um Detento
Labortexto Editorial (3664-7500) 182 páginas, R$ 18.
Contatos com o autor: 0800-770-0334
E-mail: jocenir@diariodeumdetento.com.br
|